quinta-feira, abril 17, 2014

Acessos mundanos

É quase sempre assim para Brent. A sua mente não tem ponto de equilíbrio, ora investe, ora desiste. Está numa decisão acalorada com a sua falta de decisões acaloradas onde se inspirar. Tem tudo para ser mais um apaixonado Shakesperiano, mas a sua indubitável e lendária temperatura podal faz com que as próprias cobertas se retraiam. Brent está ofegante e pela primeira vez sente que perdeu o sentido à sua intimidade. Acaba por ter pena dele próprio e retira-se para o conforto do seu comando, que ainda não tem capacidade de mudar o canal cerebral, mas pode com eficácia passar-lhe imagens com rapidez diante dos seus ausentes olhos...

sábado, março 09, 2013

Corpos

Sabes que falo sempre de rodas dentadas, mas não desta vez.
Agora são corpos de mel biológico,
porque outros seriam hexagonais e difíceis de imaginar.
Apenas um nome diferente para um suor aflito, gravítico.
O mel, o suor das abelhas e do vento.
A vida dos pomares.
A Maçã de Adão, a Maçã de Newton, a Maçã de Arquimedes.
Já reparaste que o fruto mais neutro tem adoradores devotos?
O fruto mais comum auxilia as maiores conquistas.
Mas mesmo assim gosto apenas do mais ácido deles.
E não a como.
Vou de Mãos dadas com as agulhas no palheiro das coisas,
e também com os ponteiros biológicos nas veias da crosta terrestre.
Ergo-me.
Palavra feia.
Ergo-te.
Rapidamente chega o dia novo abraçado à noite anterior,
a dormir em concha com o que já foi.
Escuto o virar da página, encostado ao teu monte de Vénus.
Engulo a tua deliciosa febre, derradeira imagem,
lembrança de um nó górdio que, sonhando múltiplas noites anteriores
acorda de um sobressalto ofegando em mim.
Ainda assim corres comigo.
A maratona da falsidade.
Os cem metros do desejo anónimo.
Os oitocentos metros da demora em permitir àgua potável.
Recorto o teu umbigo em molde picotado. Lembras-te, dessas carteiras da infância
onde nos sentámos a rir tantas vezes.
Tudo parecia demorar.
As coisas eram feitas de carvalho e lá podia rasgar o teu nome.
Em carne de orvalho.
As melhores paredes carnívoras.
Fazias-me beber a espuma dos dias.
Agradeço o gesto cortesia.
Agora já posso desaguar no esgoto da realidade.



Texto: Paulo Dias





As ruas

Uma das primeiras impressões que retirei da rua foi, sem surpresas, uma percepção rápida. Não poderia ser de outra maneira. O movimento ondular é semelhante ao oceano turbilhão. Faz com que tudo seja feito à pressa e cola o andar à sobrevivência. Essas primeiras impressões não têm uma segunda oportunidade para nos esclarecer. Repara-se no sofrimento que é ser e pertencer aos outros. Na rua estamos vulneráveis aos variados atropelos que vão surgindo desatentos. Um carro, vários tratores obesos com as mãos ocupadas e a cabeça noutro lado qualquer. Sujeitamo-nos, recebemos os nãos mais duradouros e com isso pretendemos erguer a estrutura que nos permite viver nas ruas e vielas do sentir social. Reparei, com o passar das esquinas e blocos de apartamentos, que a melhor definição de realidade estende-se pelas colinas e quarteirões do desassossego. Os corações amontoados derretem-se uns aos outros e acumulam pavimento. Borbulham no Inverno da vontade e ainda assim são moldáveis. Criei tantas barreiras nos diversos regressos a casa que fui ficando por ali, na janela que dá vista alargada para as ruas mais próximas de mim. Fiz chorar as pedras da calçada com o constante adeus presente nas órbitas e doeu. Doeu tanto que nunca mais quis calçar botas ortopédicas.




Texto: Paulo Dias

terça-feira, junho 26, 2012

Brent e o Regresso Enferrujado

Brent parece um ser sadio, em todos os momentos da sua vida quotidiana. Nunca ninguém suspeita de nada, ainda que a sua atmosfera de silêncio seja fértil em situações ambiguas. Nem boreal  nem latino, nunca apaixonado nunca frígido, poucas vezes eloquente mas nunca desinspirado. Retirou-se convenientemente, demorou a regressar. Não tinha nada a dizer, nada a apresentar, enredou-se numa trama afetiva da qual ainda não conseguiu escapar. Estes são dias difíceis para Brent, que já não sabe ser um bom fingidor e ainda tem dores intensas das memórias recentes que não desaparecem. Brent está de luto pela sua calma universal e por este motivo sente-se abandonado por todos os movimentos que proclamam a ditadura da vontade como forma de dobrar o tempo, o espaço e as barbas do Criador. Estamos todos com ele, a ferrugem que o cobre é também ela temporária e tem vontade de ser despida por um spray antidotal.

quinta-feira, abril 02, 2009

Ruínas

Os fortes silenciam a ténue voz da alma
e eis que chega alguém
com uma muralha bem erguida ao alto
em nome da troça e escárnio da minha.

Incidência oblíqua no centro deste equador
contracção audaz de todos os berros.
Húmus frio, parda alergia na sentimental luz.

Ferrugem, clara roldana
desafio matemático nos biológicos ponteiros
de relógio, permanecem lacaias ou agulhas no palheiro
das coisas.

Definitivamente obsoletas.
Deixadas à mingua, impedidas de correr as
veias intestinas das outras.

E sempre ruínas nuas,
marca de grandiosidade apagada,
fumam as jazidas de carbono alquímico e
sonham febris dias alvos,
livres de batalhas imaginadas.

Quem por trás dela se esconde
alheado, pouco alerta,
herda o falsímetro sensacional da liberdade.
Os nós cansados procurando abrigo
e os elementos...ah! os elementos!
Pausam o botão da viagem a fim de se erguerem
sãos e rupestres.

Comum pensar as ruínas propriedade sem dono...
Um habitáculo primitivo onde juntamos os nossos corpos aos cadáveres
do inconsciente colectivo e
dançamos o paganismo ancestral...

Sabendo que toda a estrutura tem um arquitecto
que mesmo negligente ou comunitário
vela ao longe a sua criatura.


Texto: Paulo Dias

quarta-feira, dezembro 24, 2008

O.C.V.D.V.N.I.*

A minha mente é um * com vontade de voar. E enquanto dá à luz mais um *, inventa um nome para o recém nascido. Um nome que não seja muito literal, que disfarce a evidente muralha que carrega a estrela que pariu. asterisco. Um nome entre (parêntisis) porque é para se dizer baixinho. Em surdina. Com letras pequenas.

A minha mente continua, não obstante, a ser um * com vontade de levantar vôo. De partida a tempo de ser um dente de leão, saber que é sempre um + antes de sentir os espinhos. A minha mente é e será sempre um objecto voador com vontade de voar, e por isso, apenas por isso, não identificado.


* (Objecto Com Vontade De Voar Não Identificado)

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Ciclo Vitae

O que é que o dia de hoje tem de tão diferente de todos os outros dias, em que a lentidão acumula o pó das redondezas e eu não passo o pano por cima das impurezas ?
Nada, porque o dia de hoje é igual a um de todos os outros, em que concentrei o pó das impurezas e não passei um pano por cima das redondezas.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Latim e o Vaticano

O latim não é uma lingua morta, mas um dialecto que transforma automaticamente quem a fala num zombie.

quinta-feira, novembro 20, 2008

Ovo gemido


A partir do momento em que se ouve um ovo cozido a gemer baixinho o conceito de vida e morte fica sériamente abalado.
Parecia que o futuro pintainho se estava a queixar por não ter tido a oportunidade de ver o planeta em que a sua espécie tem sempre um prazo de validade.
Uma gema só pode comunicar através de gemidos, a sua lingua natural.
É como eu digo, a loucura tem sempre um método e faz todo o sentido.
E a minha está intimamente ligada a momentos senis como este.

quinta-feira, novembro 13, 2008

Sopas de letras

Todos os sonhos começam invariavelmente pela degustação de uma sopa de letras. Foi assim que aprendi a sonhar, a criar formas liquidas de entretenimento enquanto alimentava o corpo e a alma. Ao juntar as letras formamos imagens, representamos coisas que estão ausentes e aprendemos pedaços temperados de cultura. As utopias nascem assim, letras que flutuam à deriva e que ainda não têm significado. É isto a utopia, não é um bom lugar e nenhum lugar como dizem, é simplesmente o nascimento do pessimismo que nos permite duvidar da nossa sanidade. É a distância que vai do limite inferior da perseverança vezes o optimismo individual a dividir pela época em que a humnidade vive.
A utopia é a morte do sonho na fogueira, é o oniricídio. É semelhante ao imperialismo cultural que guia as nações para guerras de imposição de valores. A utopia quando nasce já está morta.

segunda-feira, novembro 10, 2008

Sono pesado

" Vamos a correr até lá fora, o som de aspiração mais audível. Chego primeiro, como o rato da boda célebre. Dois carros, melhor, dois veículos que deslizam sem dificuldade, mas instáveis, fazem barulho. Muito barulho. São hoovercrafts, hibrídos, suaves, aspirantes a ex-aspiradores. Sobem e descem colinas urbanas instaladas no quintal verde, um pouco artificais. Sobem e descem. E os meus olhos acompanham os demais. Sentimos o entusiasmo dos corredores. Estão felizes, têm um brinquedo novo e divertem-se. E eu também. Quero estar ali, com eles, gozar, voar sem sair do chão, sorrir, ser voraz sem parecer mal, condenável. Afinal é uma corrida, tem bandeiras de xadrez e pessoas facciosas. Nesse mesmo instante viro-me para o outro lado e estou à beira de uma piscina, numa montanha russa semelhante a todas aquelas onde nunca tive coragem de andar e sou ovacionado pela multidão calorosa. A plataforma ergue-se a uns bons trinta metros de altura e quem cair irá concerteza acordar do seu sono pesado"


Texto:"Excerto de um dos sonhos de hoje" de Paulo Dias

sexta-feira, novembro 07, 2008

Obama, Atlas e Pandora

Nesta altura empolgante que o mundo vive duas perguntas são obrigatórias: não estarão as expectativas muito altas em relação à capacidade transformadora de Obama e até que ponto é que nós temos consciência do nosso papel enquanto agentes e representantes dessa transformação?
O mundo está empolgado, seguramente. Eu também estou. Obama significa, como muitos dizem, uma mudança de paradigma. Significa, como o próprio disse, mudança, uma mudança simples.
Mas no fundo o que está em jogo é o mito do atlas. A perseverança de andar com o mundo às costas, montanha acima, para saber que quando chegamos ao topo temos de começar tudo de novo.
Nunca esquecer a proveniência porque essa tomada de consciência enquadra o sucesso.
No fundo, no dia em que eu próprio faço anos quero dar os parabéns ao Obama por ter sacudido o pó da esperança de muita gente globo fora.
A abertura de uma nova caixa de pandora. O que será que descansa no seu fundo?

quarta-feira, novembro 05, 2008

Fecho às 2 a.m

Mais uma facada no espírito e alma do bairro alto.

terça-feira, novembro 04, 2008

Fé #2

Alguém disse que a fé é masturbatória.
Eu completo: se a fé é masturbatória o extâse religioso é uma ejaculação precoce.

segunda-feira, novembro 03, 2008

O caminho faz-se caminhando

Quem caminha precisa de saber onde está para poder usar um mapa.

sábado, novembro 01, 2008

A calma redonda



Imagem: Rupprecht Geiger

sexta-feira, outubro 31, 2008

A fé é a capacidade de por o Tao em movimento, de saber que existe um big bang pessoal à espera de acontecer.

segunda-feira, outubro 27, 2008

Seres

Lantejoulas e lentilhas perdem o sentido quando afastadas do grupo onde se inserem naturalmente, as suas irmãs que em quase nada diferem delas. Formigas e térmitas ganham um novo sentido enquanto contemplamos as suas criações que arranham os céus rentes ao solo. O feijão é responsável por um reino onde habita um gigante indolente, lançando um pé por onde qualquer um de nós pode trepar. É mágico, sonha e tem esse potencial todo dentro de um indivíduo feijão. Os seres humanos perdem-se na multidão a que chamamos de rebanho e ganham sentido quando exaltados ao abrigo de um conjunto de pessoas habitantes da mesma região, com os mesmos formatos. O que quer isto dizer? que não faz sentido dizer lantejoula, porque ela deixa de o ser se estiver sozinha. Passa automaticamente a ser um berloque ou outra coisa qualquer. Não faz sentido dizer lentilha, porque ela perde todo o seu valor estético e nutritivo, passando a ser um lentilha orfã. Que faz sentido dizer formiga, porque muitas vezes avistamo-las a vaguear sozinhas, mas sempre com a sensação que o grupo estará mais perto ou mais longe, definitivamente presente. Que não faz sentido dizer homem, porque homem é, ao mesmo tempo, sinónimo de solidão e imersão num grupo mais vasto. Ainda procuramos a melhor forma de nos caracterizar. Ou lantejoulas ou formigas ou ambas ou nenhuma. Talvez feijão dentro de um saco de feijões mágicos.

sexta-feira, outubro 24, 2008

Maior do que a vida

Todas as biografias de pessoas "maiores que a vida" e carismáticas o suficiente para levarem com elas todas as outras fazem-me sentir que carrego alguma omnipotência em vão. Porque para ser maior do que a vida é preciso olhá-la nos olhos e dizer directamente que ela não nos mete medo.
É preciso atropelá-la para que ela nos doa e para que possamos ser mártires da nossa própria luta autofágica. Tudo para que no final ela esteja ali, sentada ao nosso lado, exausta por ter fracassado em derrotar-nos.

segunda-feira, outubro 20, 2008

Pensar

E hoje recuperei a vontade de ler de forma despreocupada e sorridente Vergilio. Sim, Ferreira como a pausa que se adivinha num cálice de Porto com o mesmo nome solene. Num acesso de pensar, folheei algumas páginas e eis que me deparo com uma frase de caractér seminal:

" Não defendo a tristeza. Não defendo a alegria. São ambas o acne juvenil, mesmo quando se é adulto. Há um lugar que fica à mesma distância uma da outra. Mas muito mais acima ou muito mais abaixo. Não sei como se chama. Ou já o esqueci."


Excerto de "Pensar" de Vergílio Ferreira

segunda-feira, outubro 13, 2008

Um Semáforo em ruínas

" (...) Adivinho-te o nome; ficas a meio caminho do alfabeto, virando à esquerda…
Procuras semáforos em ruínas, catatónicos… deles não se tem a certeza de respirar à tua passagem; firme, mas silenciosamente, exiges minutos escancarados de espanto… assumes uma inquieta forma de posar; um pé distante do outro, um corpo distinto dos demais, uma aparência bem ensaiada, um disforme sentido de humor…
Sempre que pousas em mim, a máquina reveste-se de formigas soldado…suavizas a engrenagem, susbstituis peças danificadas por outras gerontes, talvez de meia idade… o seu peso encolhe a minha sanidade; a tua emerge de um banho reparador em àguas cálidas… o ruído amplifica a tua presença, faz campanha nas bocas que te elegem abertas…
Todas as vezes que pouso em ti, tu já não estás… perdes-te no meio da névoa embevecida de sonhos fugitivos, na cortina transparente de corpos derrotados, cabisbaixos, que nem sequer ousam perturbar o teu momento triunfante, enquanto palestras sobre prevenção rodoviária decorrem num qualquer canto burocrático, ignorante da tua existência…"


Texto: Excerto de "Semáforos e Ruínas" de Paulo Dias

segunda-feira, setembro 29, 2008

Conspiração?

Este mundo à beira do colapso é, como sempre, uma estória mal contada. Já contada várias vezes e semelhante nas suas falências e fusões. A mim cheira-me a conspiração. E a vocês?

quinta-feira, setembro 18, 2008

Gotas revolucionárias de café quente



" (...) O desconhecido observa as redondezas e escolhe um lugar para se sentar…
Os nossos olhos encontram-se a meio caminho da sala e detêm-se por instantes…parece ter escolhido vir na minha direcção… pergunta-me se está disponivel o assento, ao que eu respondo afirmativamente… estava, de facto, curioso para mergulhar na sua proveniência…
Por momentos ficamos em silêncio, à semelhança de toda a sala que nos observa, suspensa de todas as suas actividades…o relógio de parede hesita por uns segundos, sem saber como imprimir ritmo aos ponteiros também imóveis…penso em recortar o ambiente à nossa volta, em isolá-lo, mas tenho medo de modificar toda a envolvente que permeia este momento …
Resvalamos nos encostos destas cadeiras frias e eis que surge a primeira palavra: ele pergunta-me se o café aqui servido possui instintos revolucionários… Confesso que fiz um esforço tremendo para tentar perceber aquilo que ele estava a dizer; tudo o que consegui articular foi uma expressão de incredulidade tal que ele não conteve um sorriso…
Pedi-lhe delicadamente que me mostrasse como é que uma simples chavena de café poderia conter instintos revolucionários, como é que poderia orquestrar revoltas contra o estado das coisas e mobilizar as pessoas nesse sentido… foi o ponto de partida para a conversa mais bizarra que alguma vez tinha mantido com um estranho… começou por dizer que não estava ali de corpo inteiro, que naquele momento era um fragmento dele próprio que interagia amenamente comigo… falou da forma como as gotas quentes se reúnem no fundo de recipientes, como insuspeitas aprendem a ler mentes humanas e a aperfeiçoar efeitos secundários, da forma inteligente como planeiam fugas insidiosas em tampos de mesas redondas das mais altas patentes… arrependi-me amargamente de não ter comigo o bloco de notas matinais para poder confrontar mais tarde a veracidade daquele momento.
Apesar da aparente surrealidade daquele ser e da estranheza causada pelo seu discurso delirante, era afável; a textura da sua voz era familiar; sim, igual a um dia de final de setembro, soalheiro mas com a nostalgia própria de fim de estação… combinava uma lufada de ar fresco com o mistério do dia de hoje (...)"


Texto: Excerto de "Uma breve história matinal" de Paulo Dias
Pintura: Emil Nolde (1867-1956)

O mundo

Está vazio, fraco e em alguns sítios colado a cuspo.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Sobre o Deus que não se sabe se existe

"... se eu pudesse pelo menos reconhecê-lo e convidá-lo para uma conversa calma, falar de como estou longe de qualquer ideia triunfante encomendada para me entreter; poder questionar se algum dia ele pensou que a cortina de ilusão duraria para sempre e no caso da humanidade acordar, que tipo de estratégia alternativa tinha em mente… a ausência dele reveste-se, indecisa, de um significado nunca antes visto; o milagre da solidão que enquanto o diabo nos esfrega os olhos alastra e toma proporções consideráveis fez-me finalmente acordar para todo este véu enfumarado que separa os saudáveis fumadores da vida, os verdadeiros sábios que se vão matando aos poucos, voluntáriamente e apesar de todos os avisos, dos outros que pensam que a abstinência potável e a conformidade às regras pré-existentes é a melhor droga ( que a paz esteja com ele+s)…"


Texto: Excerto de "A cortina de fumo" de Paulo Dias

#8:Substituir a revolta pela culpabilidade

Fazer crer ao individuo que ele é o único responsável pela sua infelicidade, devido à insuficiência da sua inteligência, das suas capacidades ou dos seus esforços. Assim, ao invés de se revoltar contra o sistema económico, o indivíduo auto-desvaloriza-se, culpabiliza-se, engendrando um estado depressivo que tem como um dos efeitos a inibição da acção. E sem acção não há revolta nem revolução.

terça-feira, setembro 09, 2008

#7: Manter o público na ignorância

Actuar de modo a que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para o seu controlo e escravidão.

"A qualidade da educação dada às classes inferiores deve ser pobre, de tal modo que o fosso da ignorância que isola as classes inferiores das classes superiores seja e permaneça incompreensível para as classes inferiores." (cf. "Armas silenciosas para guerras tranquilas)

segunda-feira, setembro 08, 2008

#6: Apelar ao emocional

Apelar ao emocional é uma técnica clássica para boicotar a análise racional e, portanto, o sentido crítico dos indivíduos. Além disso, a utilização do registo emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para ali implantar ideias, desejos, medos, pulsões ou comportamentos.


Isto faz-me lembrar as fases de embriaguez patriótica que ciclicamente se vão verificando. Veja-se o que acontece quando há um mundial ou um europeu, em que normalmente nos convencem que somos os melhores do mundo, apelam ao amor patriótico e cantam o hino a altos berros para inglês ver.

#5: Dirigir-se ao público como se fossem crianças pequenas

A maior parte das publicidades destinadas ao grande público utilizam um discurso, argumentos, personagens e um tom particularmente infantilizadores, muitas vezes próximos do debilitante, como se o espectador fosse uma criança pequena ou um débil mental. Quanto mais se procura enganar o espectador, mais se adopta um tom infantilizante. Porquê?

"Se se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos, ela terá, com uma certa probabilidade, devido à sugestibilidade, uma resposta ou reacção tão destituída de sentido crítico como uma pessoa de 12 anos. (cf. "Armas silenciosas para guerras tranquilas.)

sábado, setembro 06, 2008

#4: A estratégia do diferimento

Outro modo de fazer aceitar uma decisão impopular é apresentá-la como "dolorosa mas necessária", obtendo o acordo do público no presente para uma aplicação no futuro. É sempre mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacríficio imediato. Primeiro porque a dor não será repentina: depois porque o público tem sempre a tendência de esperar ingenuamente que "tudo será melhor amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Finalmente, porque dá tempo ao público para se habituar à ideia da mudança e aceitá-la com resignação quando chegar o momento.


Exemplo recente disto é a passagem ao Euro e a perda da soberania monetária e económica dos países da Zona Euro. Estas mudanças foram aceites pelos países em 94-95 para uma aplicação em 2001.

quinta-feira, setembro 04, 2008

quarta-feira, setembro 03, 2008

#3: A estratégia do esbatimento

Para fazer passar uma medida inaceitável, basta aplicá-la progressivamente, de forma gradual, ao longo de 10 anos. Foi deste modo que condições sócio-económicas radicalmente novas foram impostas durante os anos 80 e 90. Desemprego maciço, precariedade, flexibilidade, deslocalizações, salários que já não asseguram um rendimento decente, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas brutalmente.

terça-feira, setembro 02, 2008

#2: Criar problemas

Mais uma estratégia de manipulação: "criar problemas para depois oferecer as soluções.
Este método também é denominado de "problema- reacção-solução". Primeiro cria-se um problema, uma situação destinada a suscitar uma certa reacção do público, a fim de que seja ele próprio a exigir as medidas que se deseja fazê-lo aceitar. Exemplo: deixar a violência urbana desenvolver-se ou organizar atentados sangrentos, com o objectivo que o público passe a reivindicar leis securitárias e securizantes em detrimento da liberdade. Ou ainda: criar uma crise económica para fazer com que o recuo dos direitos sociais e desmantelamento dos serviços públicos seja um mal necessário."

Não vos parece familiar? Isto é uma das estratégias em curso hoje, como o pseudo aumento da criminalidade. E entretanto é aprovada pelo Presidente da República uma nova lei de segurança interna. Curioso, não?

segunda-feira, setembro 01, 2008

Estratégias de manipulação


Falei da necessidade urgente de deixarmos a miopia de lado. Considerem isto como uma cirurgia correctiva. A seguir vou postar uma série de estratégias de manipulação, dia após dia, para que possam estar com os olhos mais abertos e com uma maior vontade de intervir, seja no que for e de que maneira for. Para começar, a Secretária de Estado Condoleeza Rice vem a Portugal esta semana. Podemos todos dar-lhe uma recepção calorosa, por exemplo. Mas aqui vai, a estratégia de manipulação como definição:

" A estratégia de diversão:"

-Elemento primordial do controlo social, a estratégia de diversão consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mutações decididas pelas elites politicas e económicas, graças a um dilúvio contínuo de distracções e informações insignificantes.
Esta estratégia é igualmente indispensável para impedir o público de se interessar pelos conhecimentos essenciais, nos domínios da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética.

" Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por assuntos sem importância real. Manter o público ocupado, sem nenhum tempo para pensar, voltado para a manjedoura com os outros animais" ( Extraído de " Armas silenciosas para guerras tranquilas"

Nos próximos dias continuarei a por mais estratégias...

domingo, agosto 31, 2008

Os Media Irresponsáveis.

Não é por abrirem diáriamente com notícias de assaltos e homicídios que vou passar a ter medo das pessoas. Não me vencem pela exaustão nem controlam o meu espírito. Por mim podem continuar a tentar, Não Vencerão.
A toda esta celeuma criada pela repetição destas notícias eu chamo de irresponsabilidade. Deve servir os interesses de alguém. É o negócio da (in)segurança a entrar pelos nossos lares a dentro, à semelhança de uma invasão domiciliária. Cria-se um problema e arranja-se uma solução. Nestes casos é a supressão das liberdades individuais com o pretexto da necessidade de haver mais segurança. E com esse pretexto vem mais policiamento nas ruas, mais rusgas, mais apreensões, mais operações Stop, mais bofetadas e pontapés em todos aqueles que já são esquecidos pela sociedade, em suma, mais ilusão de segurança a legitimar a necessidade de segurança. Tudo começa com um evento, neste caso um tiroteio entre duas"etnias" diferentes, uma africana, contentor desse continente longinquo e uniforme que é Àfrica, viveiro de pessoas ignorantes, violentas e que passam a vida toda a roubar e a molestar a existência pacífica deste povo de brandos costumes; a outra cigana, bode expiatório preferido da xenofobia europeia, povo que não respeita nada nem ninguém e por isso merece ser enxovalhado e discriminado; depois o assalto a um banco vivido ao vivo, transmitido em directo para toda a nação ver, indignada, tecendo comentários nos cafés, à volta das mesas, regadas de lugares comuns que trepam pela boca dos repórteres que cobrem o evento, tudo isto por culpa de "dois brasileiros" que fazem reféns e que reforçam todas as ideias prévias que nos são inculcadas à martelada sobre este povo, normalmente trapaceiro e criminoso. A seguir temos um carro blindado que é mandado pelos ares com explosivos vindos de "fora, do estrangeiro", indiciando a participação de uma quadrilha sediada fora de Portugal, talvez com ligações à máfia russa. A estes rostos invisíveis dão-se caras e proveniências. Aos que são originários de Portugal, resta o silêncio, o abstracto. Dois homens, dois indivíduos, duas pessoas, dois jovens. Fica assim ao critério do receptor colorir as peças que faltam propositadamente e dar-lhe a cara que se pensa ser a cara normal do crime, o rosto do estilo de vida criminal. A isto tudo eu digo basta; chega de sermos invisuais, chegou o minuto de começarmos a questionar toda esta parcialidade sem sentido nenhum. Crimes existem todos os dias, como sempre existiram como sempre irão existir. Não existem grandes dúvidas sobre isso. As estatísticas dizem que o crime chamado violento está a aumentar. Então e a violência doméstica, as violações? Não são notícia? Porque que é que não abrem jornais com noticias de espancamentos domiciliários ou não põe reporteres à porta de uma casa onde a violência acabou de acontecer, ainda fresquinha? Os números não contemplam caras, nem contextos. Raramente se fala das causas que podem estar na presidência de eventos destes. E as coisas boas, positivas? Não são informação, não são notícia. O sorriso das coisas boas não mete medo, não nos faz comprar alarmes nem armas nem condomínios privados. Médicos salvam vidas todos os dias, pessoas ajudam outras a troco de nada, todos os dias, várias vezes ao dia, são feitos avanços na ciência todos os dias, o pólo positivo também está vivo. Mas isso não é notícia. Gostava que estivesse um repórter munido de um microfone na mão, orgulhoso por estar a cobrir a bondade, a fazer dela notícia, todos os dias, como fazem com o crime. Equilibrem a balança. O pólo positivo também está vivo, e para perceber isso é preciso não ter medo do próximo. Mas isso não é notícia, e o que não é notícia pura e simplesmente não acontece. Estou cansado de tanta irresponsabilidade por parte de um sector que tem uma responsabilidade enorme, decisiva. São muitas vezes os olhos de quem não vê, os cães guia da população que não tem tempo ou paciência para pensar pela sua própria cabeça. Por isso deixo um recado aos media, principalmente aos televisivos, por terem uma maior audiência: Não ajam como se fossem meros porta vozes da realidade, como se sair à rua fosse um risco para a nossa integridade física. Sejam francos e assumam que são porta estandartes corporativistas de uma realidade parcial que interessa por vezes esconder ou por outras amplificar. Sejam jornalistas a sério e tenham principios. E por favor parem de tratar as pessoas como se fossem burras. Porque nem toda a gente tem preguiça de pensar.

sábado, agosto 30, 2008

Muppets - Swedish Chef - Hot Sauce

Momentâneo

Basta um momento para que a vida mude. A isso chama-se ou morte ou epifanias. Neste caso não é nenhuma delas por ser simplesmente um acidente.

terça-feira, agosto 26, 2008

A naftalina do silêncio

Ter um blogue e não ter nada para escrever é o derradeiro dilema de quem acha que tem algo para dizer ao mundo de realmente importante. O silêncio vestido desta maneira cheira a naftalina. Pareço um quadro incontornável pronto a sair cá para fora, mas porque é agosto e somos todos silly, necessita das primeiras chuvadas outonais para ser fértil.
Talvez seja o branco do fundo que me faz ter um bloqueio de escrita, talvez seja a semelhança da cor com um lençol acamado que me enche a veia literária de torpor. Ou talvez não seja nada disto e por não ser nada disto já estou a escrever outra vez.

Lego Star Wars

A minha silly season está à beira da reentré.
Por enquanto é tempo de ir mantendo a coisa a girar com uns toques de entretenimento.

sábado, agosto 16, 2008

Transformers Episode 1

Quem me conhece sabe que eu ando sempre a dizer "enerjon cubes"..aqui está o grande clássico...o primeiro episódio dos Transformers...lá mais para o fim vê-se o soundwave a sacar uns enerjon cubes..lindo!

Knight Rider TV intro Theme

Esta música é excelente, belo groove.
Hoje vou só por clássicos incontornáveis...quem não se lembra das tardes de domingo a ver isto?

Muppet Show - Swedish Chef - making donut

Donut instantâneo...brutal!

quinta-feira, junho 26, 2008

Brent e os carros hibridos


Brent ausentou-se um busca de um carro que, para além de ser híbrido, fosse também a sua cara.
Deparou-se com uma série de carros que ainda não existem, à semelhança da sua cara, que também ainda não existe.
Brent está de regresso à confusão de um mundo em que tudo o que acontece é menos do que ideal.

A aridez da falsidade

O pior mesmo é quando encontramos pessoas que são àridas e falsas.
Parece que estamos a assistir em primeira mão a uma daquelas aberrações da natureza, algo que não estava planeado mas que foi gerado pela improbabilidade da sua ocorrência.
É quase angustiante perceber que receptáculos vazios andam livremente no meio de todos os outros, sem ninguém suspeitar de nada.

quinta-feira, maio 22, 2008

Brent

Brent foi à procura de um carro hibrído. Volta já.