quinta-feira, maio 22, 2008

Brent

Brent foi à procura de um carro hibrído. Volta já.
(No comments.)

terça-feira, maio 20, 2008

Doridas

O que me dói é a dor de não a ter
e de vez em quando a coisa é só por si
breve, rala, escovada.
Bem penteada, patenteada.
Com um travo félico de arranjo
turvo.

Mas nem toda a dor tem vestidos em segunda mão
às vezes aperalta-se e antecipa a estação
corre desenfreada pelo sorriso das montras
e cola-se às paredes como se estivesse em saldo.

A dor é consumista.
gasta-me de propósito, à semelhança do dinheiro
que oferece.
E depois troca-se por outra dor qualquer.

A dor é dependente dela, mas não é região autónoma
é apenas satélite bélico...

(to be continued)

O nome Brent

Quando lhe disseram que tinha nome de barril de petróleo e que estava em escalada, Brent sentiu um arrepio que lhe gelou a espinha e evaporou a sua forma displicente de estar. Decidiu estar mais atento ao que se passa no mundo e começou imediatamente a pesquisar as suas origens.
Brent já não pode evitar o mergulho na sociedade contemporânea. Agora está tudo demasiado evidente para passar ao lado.

Brent e a T.V.#2

Brent ficou sem televisão. Avariou-se por ser frágil e de uma espessura que não permite sonhar com a existência de seres que se movem lá dentro. Pela primeira vez Brent sente-se triste e excluído de alguma forma de um mundo que, além de irreal, é a sua única companhia.

quarta-feira, maio 14, 2008

Sistemas faliveis

System failure.
O nosso primeiro ministro aparentemente não sabia que era proibido fumar nos vôos charter.
As regras não são para todos, já todos nós sabemos.

terça-feira, maio 06, 2008

Autarcas


Eles partem tudo. E depois partem mais um bocado. E a seguir têm perdas de memória e agem como se nada fosse. Tudo em nome de um bem estar que só eles conseguem desfrutar.
E o resto do imaginário popular e de infância congela-se porque é assim decretado pelos autarcas.


Imagem: Feira Popular hoje em dia

segunda-feira, maio 05, 2008

Maio Lento Maio

Tinha sempre a sensação que o mês de Maio era uma espécie de tomada de fôlego do ano depois de uma corrida desenfreada dos 4 meses anteriores. O ano fazia uma pausa em Maio, dava-nos mais luz e mais tempo, mais cheiro para além dos seus 31 dias. Maio é um mês lento, quase tanto como Agosto, o mais lento de todos. Mas algo me diz que este mês de Maio vai ser o mais rápido dos últimos anos, até porque o ano já esqueceu como é que se trava e nem sabe abrandar.

Certezas não absolutas

Tenho quase a certeza que esta cor que estou a ver agora não passa de uma pálida tonalidade dela própria. Tenho quase a certeza que esta cor que vejo agora não é a cor que deveria estar a ver. Mas esta é a cor que vejo e ela não tem nome.
Tenho a certeza absoluta que se a descrevesse iriam discordar de mim. Tenho a certeza que se a maioria visse a mesma cor ela não seria a mesma cor. Tenho a certeza que se a maioria visse uma cor ligeiramente diferente, essa passaria a ser a cor que eu deveria estar a ver. Mas esta é a cor que eu vejo e ela não tem tonalidades. É simplesmente a cor que é.
Mesmo que se juntem e me tentem convencer do contrário, ela não muda a reboque das opiniões que se tem dela. A cor que eu vejo tem uma personalidade forte, simplesmente porque não se perde em detalhes.

A relevância do silêncio

Afinal o que é que as pessoas têm de tão relevante para dizer, a ponto de concluirem que já não há nada a dizer? Porque não o dizem simplesmente em vez de fabricar uma expectativa porventura interessante de terem algo importante para dizer? O que é o silêncio senão uma capa barulhenta na nossa representação do outro? Se têm algo a dizer digam, não nos deixem na expectativa. Agradecemos, pelo menos eu agradeço. E talvez o mundo agradeça.

quarta-feira, abril 30, 2008

Brent e a T.V.

Brent decidiu que estava na altura de instalar Tv por cabo. Não porque tenha sido uma decisão visceral, mas porque foi batido por uma operadora telefónica hábil. Agora pode ter mais canais para zappar e escapar à matança e putrefacção social a que se assiste diariamente nestes espaços desinformativos. Brent pode assim pensar menos. Ás vezes as melhores decisões são involuntárias e Brent é um perito em tomá-las.

Brent e a hora do jantar

Um homem está a chocar a Áustria por ter mantido a sua própria filha presa numa cave durante 24 anos, durante os quais manteve uma relação incestuosa originando 7 filhos.
Brent ao ouvir esta noticia continuou a comer em frente à televisão, procurou o comando e mudou de canal, porque Brent não gosta de ver notícias que o possam engasgar à hora da refeição.
Mas não tem muito por onde escolher. Brent está inscrito numa rede social que o impele a ter reacções maniqueístas, ou a histeria ou a indiferença. E como ser recatado Brent não faz uso de nenhuma das duas. Limita-se a comer o jantar e a fazer zapping, sempre pela mesma ordem e pelos mesmos canais. Brent é como todos aqueles que veêm o telejornal como fonte de companhia e desinformação. Brent é um de nós e nós somos um de Brent. Somos todos bons fingidores.

terça-feira, abril 29, 2008

Flor é uma flor.
Habita os dias quentes e seduz sempre à passagem de alguém. Não é das mais formosas, mas tem manha. E cores caleidoscópicas.
E o que parece um simples colher de flor, transforma-se em estrangulamento. Flor está condenada a desaparecer às mãos de um alien que veio de longe atrás de um aroma insuportável.


Imagem: Alien a colher uma Flor (Paulo Dias, 2006)

Solução

A chave para a felicidade é a paz interior.
Basta então descobrir a maneira mais eficaz de a obtermos.
Parece fácil, não?

quinta-feira, abril 24, 2008

Indie Lisboa


Começa hoje a 5ª edição do Indie Lisboa, este ano com 238 filmes, 27 dos quais portugueses.
A programação encontra-se aqui.

Um ano depois

O meu primeiro post fez ontem um ano, assim como este blog.
Por definição estes momentos celebram-se, mesmo que silenciosamente.
O meu festejo silencioso vem acompanhado do ruído da palavra escrita mais cantada: Parabéns!

sexta-feira, abril 18, 2008

Abril àguas mil

Estes dias de dilúvio lavam a melancolia. E transformam-nos em seres provenientes da àgua, felizes por estarmos abrigados dela e, à semelhança do fascínio que uma fogueira provoca, ficamos embasbacados com a beleza das suas mudanças de orientação e o irromper do arco íris de volta completa.

quarta-feira, abril 16, 2008

Brent

Brent não gostou de ter sido retratado como um zombie que passa através da vida sem ser tocado por ela, mas não fez nada para o sublinhar. Essa mesma revolta não é habitual em Brent, não é nem nunca será rebelde. Limitou-se a engolir o almoço como sempre engole, no mesmo café do outro lado da estrada onde está todos os dias à mesma hora. Brent não gosta de enfrentar as pessoas, não gosta que o enfrentem. Mas quando isso acontece normalmente leva sempre a pior. Brent está agastado, mas não se nota. É um bom fingidor.

Pequenas estórias para pequenos #4

Todo o boémio tem na sua colecção de memórias um momento como este. É incontornável. Se não tem, então é porque anda a fazer algo de errado.
Ou então anda a fazer algo de errado poucas vezes. O caso de Elliott era exactamente este, fazer pouco e mal. Elliott queria ser boémio, seguir a tradição da família. Sendo descendente de uma nobre e infame linhagem de bon-vivants, não queria ser ele a trazer a vergonha de uma vida certinha para o meio de tantos ilustres noctivagos. Mas o sangue não lhe corria nas veias, Elliott anseava por ser certinho, beber sumos naturais, ter uma alimentação saudável, casar cedo e ter dois filhos e dois cães, um de cada. Quando fez quinze anos foi-lhe dado o manual da família, e era tradição que a partir do momento em que o recebesse o enchesse de estórias dignas de figurar no quadro de honra. Elliott estava simplesmente apavorado, não tinha o mínimo grão de boémia, nem jeito para dançar e menear ao som de um Dj a noite inteira. Sempre fora fraco, a mãe raramente abandonava a sua cabeceira, partira vários ossos por quedas insignificantes e falhava todas as provas de testosterona em que era envolvido. O seu Pai, Boémio de quinta geração, era rígido, mas paciente. Tinha a esperança que o genezinho acordasse finalmente do seu longo sono e o devolvesse ao sítio onde ele pertencia por direito e legado: a pista de dança. Depois do seu aniversário, começou a levar Elliott com ele para lhe mostrar os melhores poisos de iniciação, e até a alguns dos rituais onde os novos boémios se encontravam para partilhar experiências. Elliott apreciava a companhia do seu Pai mais do que estas mostras de talentos, tudo o que ele queria era ser atinadinho, como os miúdos da escola, chatos, desinteressantes, falar de toques e telemóveis, passar tempo nos chats e fazer directas a jogar jogos online. Era essa a vida que ele queria, nada de muito espalhafatoso.
Foi organizado um evento de Baptismo para todos os emergentes. A Elliott coube a díficil tarefa de ser o Rei da pista de dança. Andou apavorado durante dias, não conseguia dormir à noite, era este o momento porque toda a gente esperava, e toda a gente esperava que o desempenhasse com desenvoltura e atitude. Elliott era desajeitado, era assim que ele era. Como ser o Rei da pista tendo dois pés esquerdos e revestidos a chumbo?
Decidiu falar com o Guru da família, o conselheiro mor, aquele que aconselha os que se perdem do rebanho e mergulham no mar da angústia. Foi recebido com um sorriso complacente, parecia que era aguardado. Foi levado a ver fotografias dos seus antepassados a quem coube exactamente a mesma tarefa. Bares na Nova Iorque dos anos vinte, em clubes de Jazz, festas hippie dos anos sessenta cheias de missangas e amor livre, tacões enormes em discotecas dos anos setenta, penteados coloridos e mal cortados nos anos oitenta, moshes ao som de grunge nos anos noventa. Elliott viu toda a sua linhagem, em toda a linha, com todas as atitudes possiveis. Elliott aparece na imagem contente e confiante, como um bom Rei da Pista da sua linhagem dever ser. Perdeu o medo e não deixou de ser certinho, mas boémio. E hoje, casado, lê o manual e as suas estórias aos filhos, aos cães e é sempre o Rei da Pista de Dança.



Imagem: Pista de Dança (Paulo Dias, 2006)

Pequenas estórias para pequenos #3

Molly tem tido sonhos no mínimo estranhos; encontra-se vezes sem conta presa numa sala com um falo gigante. Já tentou de tudo; acordar de repente a meio da noite e virar-se para o outro lado, contar carneiros castrados para não voltar ao mesmo tema, fazer chichi na cama, ler a Biblia e o livro de São Cipriano ao mesmo tempo, beber àgua benta e comer pão de alho, mas nada. Nada resultava, tudo infrutífero. Molly vinha de uma família religiosa, onde tudo era obra de Deus. À mesa agradecia-se a refeição, eram lidos excertos do livro sagrado, os Dez Mandamentos era o seu filme favorito, à saída de casa punha sempre o pé direito primeiro e quando tinha boas notas nos testes olhava para o tecto e apontava discretamente para o céu com um sorriso cúmplice. Mas estes sonhos estavam a preocupá-la bastante, tinha vergonha de estar a ser observada pelo Todo Poderoso enquanto um falo também ele poderoso não se cansava de se encostar às paredes da sua consciência. Ficou assim durante dias, meses, anos até atingir a puberdade. Perguntou ao Padre que nome é que se dava a um sonho que se tem muitas vezes, ao que ele respondeu, pausadamente: Recorrente, minha filha, recorrente.
Ao longo dos anos a relação de Molly com Deus foi-se alterando. Começou por não ter coragem de rezar à noite, achando que ia levar um grande raspanete por estar a dar guarida a todas aquelas imagens profanas. Já nem com Jesus Cristo falava, com medo que este fosse fazer queixinhas ao Pai. Afastou-se gradualmente, cada vez mais, mas sempre com a sensação de estar a trair algo mais forte do que ela. Até que um dia estava à porta de uma exposição de um artista novato, de seu nome Paulo Dias, que estava a chocar a pacata vila e que o Padre numa das eucaristias tinha desaconselhado vivamente. Por estes dias Molly já não dava tanta atenção ao que o Padre dizia e resolveu ir espreitar. Entrou devagarinho, não fosse ela ser reconhecida por uma beata vigilante, daquelas que parecem jornais de notícias, e deslizou prudentemente para uma das salas contiguas à entrada. Estava mal iluminada, por isso esgueirou-se para dentro. Os seus olhos incharam as órbitas e reconheceu imediatamente a peça que estava encostada à parede: era o falo que a perseguia nos seus abundantes sonhos pecadores. Os seus sonhos eram premonitórios e afinal era uma visionária! Molly foi-se refugiar num lar de freiras, de livre vontade, a fim de restabelecer o contacto com Deus, Jesus Cristo e afins, o seu destino. Tinha muito para rezar, afinal os anos tinham passado e havia muitos avés para recitar. É uma beata pacata Molly, virgem, solidária, ajuda o Padre sempre que pode, o coitado já está velhinho, apanhou Alzheimer e esquece-se com frequência que Deus afinal existe.


Imagem: Contemplação Fálica ou a Inveja do Pénis (Paulo Dias, 2006)

terça-feira, abril 15, 2008

Pequenas estórias para pequenos #2


A Bebel tem uma característica única: consegue dobrar as pernas e deslizar sobre encostas geladas. Não é muito útil, até porque com as alterações climáticas os climas setentrionais estão em mudança. O degelo dos pólos vai acabar por condenar a a nossa pobre amiga ao tédio e a perder corridas com tartarugas e até lebres. Mas Bebel pensa em tudo; viu na televisão que existe uma oficina onde pode revestir as suas pernas de titânio, um material super resistente e assim usar a sua invulgar elasticidade para se locomover em qualquer superfície, com a vantagem de deitar faiscas aos que atrás dela vão comendo o seu pó. Divertido, não? Pôs-se a caminho e deslizou mais depressa do que nunca, com tanta velocidade que ficou com a cara lisa e o cabelo espetado para trás.

Imagem: Auto Locomoção com Cabelos ao Vento (Paulo Dias, 2006)

Pequenas estórias para pequenos #1



Este é o homem do chapéu pequeno orfão da sua cabeça. Está à procura dela, mas como perdeu os olhos só lhe resta a intuição. Infelizmente saiu de casa e esqueceu-se dela na gaveta de cima da cómoda. Neste preciso momento está a pensar se deve voltar para trás para a ir buscar ou se continua sem ela, seguindo apenas o caminho mais à mão.
Sem sistema olfactivo, sem nada que o possa guiar para além do tacto, seria complicado encontrar a casa onde está a gaveta que guarda esquecida a intuição. Decide congelar este momento e posar para mim, imortalizando a dúvida e a curiosidade sobre a odisseia que o espera.


Imagem: A Encruzilhada (Paulo Dias, 2006)

Um dia na vida de Brent

Brent chega a casa, como todos os dias chega a casa, depois de todos os outros dias a chegar a casa, sensivelmente à mesma hora. Abre a porta, é recebido entusiasticamente pelo cheiro que deixou antes de sair e dirige-se tranquilamente para o sofá que o aguarda impaciente. Desembrulha o suculento jantar que compra sempre ao virar da esquina, a mesma que dobra obstinadamente em direcção ao meio de transporte que o carrega dali para fora. Verifica o telefone fixo; não tem mensagens novas. Senta-se em frente a um ecrã vazio, liga a tela estática, acompanhando a sua refeição. Brent suspira de alívio por mais uma vez ter encontrado tudo no seu lugar; os telejornais, as novelas, as séries e as vendas. Pensa em sair de casa e dobrar a esquina contrária à habitual, aquela que o leva em direcção aos amigos que falam pelos cotovelos mas ainda assim nada articulam de novo. Brent senta-se no mesmo lugar, na mesma tasca, pede o habitual e bate o maço de tabaco enquanto bebe o café curto. Sai-lhe da boca a mesma pergunta e obtém a mesma resposta. Sempre. Mas a cordialidade de Brent é inesgotável, lá vai ele sorrindo pepsodentemente das piadas badalhocas que saiem da boca do membro engraçadinho do seu grupo. Brent olha para as horas de vinte em vinte minutos, à espera do momento oportuno para dizer que o dia já vai longo e que não descansou o suficiente durante o sono. O mote está dado inadvertidamente, agora a conversa emigra para um desfilar de maleitas e de queixas sobre o quotidiano. Foram-se as piadas fáceis, quebrou-se o gelo que agora derrete, já alguns embriagados sugerem outros sítios para continuar a falar sobre rigorosamente nada. Brent não quer ser indelicado, aceita levemente a sugestão e junta-se a eles. Saiem com os casacos ainda na mão. Não faz frio, estão uns agradáveis 20 graus e é Primavera.
Brent sugere um sítio calmo, com vista para a cidade e as suas colinas. Os mais influentes sugerem um bar onde possam passar revista às mulheres e homens que ali se encontrarem com eles. Brent sente-se derrotado, mas nada diz. Limita-se a concordar e a acompanhar. Sente que é mais um daquele grupo. Leva uma pancadinha condescendente nas costas e entra num dos carros. Brent e os amigos descem as escadas que conduzem ao sítio habitual depois do sítio habitual. Nele se encontram as mesmas pessoas, visto que é o mesmo dia da semana. Dirige-se ao bar e pede o que sempre pede. Cumprimenta o rapaz novo que se encontra encostado ao balcão, dá-lhe uma leve pancadinha nas costas. Olha à volta, vê pessoas novas, outras menos novas, umas feias, outras bonitas, umas que sobressaiem por não terem nenhum caractér distintivo. Fica a ouvir as conversas cruzadas dos seus amigos, finge que presta atenção. Brent é um bom fingidor, nunca se percebe que a mente dele nunca está no mesmo local que o corpo.
Mais uma bebida para o grupo, mais um brinde a clichés que por serem pouco usados parecem mais profundos. Mais um sorriso lúteo. Já têm lugar para se sentar. Escolhem a mesma mesa, ao canto, onde todos podem estar nos seus lugares habituais. As horas vão passando, os bocejos vão aparecendo e a mente de Brent já veste o pijama. Em breve alguém irá sugerir o final da noite e todos irão concordar. E Brent irá ligar o despertador para poder dobrar a mesma esquina à mesma hora de sempre.

Texto: Paulo Dias

segunda-feira, março 31, 2008

Ilusão ou verdade?

Parece mentira , mas assim de repente a hora já se adianta ao tempo e estamos de volta aos dias em que a luz derrota a escuridão, onde as pessoas já podem estar mais leves porque aparentemente têm mais tempo. Parece impossível, mas ainda agora o ano começou e já está a surgir Abril. Parece mentira, mas até os dias já não são o que eram.

sexta-feira, março 28, 2008

Colhe todo o Oiro

"Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia."




Eugénio de Andrade

quarta-feira, março 26, 2008

Porque não usar um martelo nos outros?

Aposto que muitos de vocês já se interrogaram sobre o porquê de não usarem um martelo na cabeça uns dos outros.
A questão é muito simples: porque dói.
E se mesmo assim o usassem, a pessoa era capaz de fazer o mesmo e atingir-vos de volta. Continuaria a doer.
Ou seja, em suma, se batermos em alguém com um martelo e essa pessoa tiver um à mão, estariamos a bater em nós próprios no final das contas.
É uma das maneiras de percebermos que somos todos UM.

terça-feira, março 25, 2008

A revolução é agora

Acho que a revolução que todos procuramos está mesmo à nossa frente. É o combate e a exposição das sociedades secretas que controlam todos os eventos que se passam à escala mundial e que são preparados para despojar os países mais pobres das suas já parcas economias.O seu objectivo é o de controlar o mundo. Pois é, aquilo que todos vemos nos vilões caricaturados dos desenhos animados e da B.D. tem o seu correspondente na vida real. Existem mesmo e querem controlar o mundo, ao estilo dos melhores psicopatas retratados na ficção. E nós, que estamos habituados a comer em frente às dezenas de mortos e feridos, estamos tão longe geograficamente e emocionalmente que preferimos seguir com a nossa vida sem que ela seja amassada com estas maçadas. Estamos à beira do que pode ser a revolução mundial, e antes que estes senhores que fazem parte destas obscuras sociedades secretas consigam tudo o que pretendem, já é tempo de acordar. Para isso deixo-vos aqui dois ou três documentários para que possam perceber melhor do que estou realmente a falar.
A revolução é agora e para isso temos de ser todos humanos, nem mais nem menos que outros iguais a nós. E temos de, eu incluído, deixar de adiar. Não se dizia que esta geração não tem ideais pelos quais lutar? Pois bem, eu digo-vos que não existe luta mais premente do que salvar o mundo. Como os heróis de ficção que à última da hora impedem os maquiavélicos vilões de destruir a Terra ou o Universo.

segunda-feira, março 24, 2008

Persepolis

Ainda não fui ver (Shame on me)!

Jean Seberg


Uma das minhas mulheres de Godard preferidas.Simples, pós-moderna e sofisticada.De cortar a respiração em várias unidades de saudade.
A Banda Sonora de Stereolab é uma repetição neste blog, onde tinha dito se esta música tivesse género seria feminina e de cabelo curto. Aqui está a confirmação:


"Se pudessemos atribuir um dia da semana a esta música, ela seria claramente um sábado à noite; se fosse um mês do ano ele teria de ser quente; se tivesse nome de mulher não ficaria mal entregue...se tivesse boca eu beijava-a... se tivesse corpo seria discreto, se tivesse aspecto físico seria bela e simples, se tivesse cabelo seria curto e se tivesse rodas seria um carrinho de rolamentos".


As mulheres de Bilal parecem homens que decidiram ser mais belos e transformaram-se em mulheres.
Se fossem vivas estariam a anos luz de distância, num mundo onde dominariam sem sombra de dúvida.


Imagem: Enki Bilal, personagem Eva do filme Tykho Moon

sábado, março 22, 2008




Um icone, mesmo adulterado, mantém a sua identificabilidade intacta.

Tibete vs China


A verdadeira face dos jogos olimpicos, onde caem recordes, mas não barreiras.
Sendo as Olimpiadas a celebração de um certo tipo de vida e de mundo, que mundo é este que vamos celebrar em Pequim daqui a uns meses?
A guerra generalizou-se. Temos instituições caducas, sediadas nos interesses dos países que as conduzem e que desvirtuam o propósito para o qual foram criadas. De que serve termos uma NATO ou uma ONU se mais depressa promovem a destruição, o desinteresse pela vida humana e a falência da solidariedade entre povos?
Estas olimpiadas são realizadas num ano em que a guerra é a regra. Estas olimpiadas não deveriam ser uma capa de hipocrisia e de branquamento da intolerância dos países historicamente imperialistas. Estas olimpiadas são a vergonha a ser celebrada no território da vergonha.Sou contra a realização das olimpiadas num país que não respeita a história, os direitos e a independência de um território que resolveu anexar.Os jogos olimpicos celebram a irmandade e solidariedade entre os diferentes povos do mundo. Aproxima-nos uns dos outros, faz-nos sentir parte de um todo harmónico, com as mesmas aspirações, parte de uma comunidade alargada a que chamamos humanidade. É isto o desporto, é esta a mentalidade que preside e alimenta os jogos olimpicos.É um espaço de paz e como tal deve estar livre de quem fomenta a guerra.

Reset

Onde é que está o Botão de Reiniciar?
Tanta tecnologia e ainda não chegámos ao básico.

quinta-feira, março 20, 2008

A Felicidade de ser o Outro



"Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre!

Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.
São felizes, porque não são eu.

As crianças, que brincam às sacadas altas,
Vivem entre vasos de flores,
Sem dúvida, eternamente.

As vozes, que sobem do interior do doméstico,
Cantam sempre, sem dúvida.
Sim, devem cantar.

Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.
Assim tem que ser onde tudo se ajusta –
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza.

Que grande felicidade não ser eu!

Mas os outros não sentirão assim também?
Quais outros? Não há outros.
O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada,
Ou, quando se abre,
É para os crianças brincarem na varanda de grades,
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.

Os outros nunca sentem.
Quem sente somos nós,
Sim, todos nós,
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada.

Nada? não sei...
Um nada que dói..."


Alvaro de Campos

quarta-feira, março 19, 2008

Tao

Para quem como eu sempre teve dificuldades em perceber o Tao, aqui vai:


"Havia qualquer coisa de indeterminado antes do nascimento do Universo.
Esta qualquer coisa é silenciosa e vazia.
É independente e inalterável. Circula por toda a parte sem nunca se fatigar.
Deve ser a Mãe do Universo.


Como não lhe conheço o nome chamo-lhe "Tao"
Esforço-me por chamar-lhe grandeza.
A grandeza implica extensão.
A grandeza implica afastamento.
O afastamento exige retorno.

O Tao é grande.
O céu é grande.
A terra é grande.
O homem é grande.
Eis porque o homem é um dos quatro grandes.

O homem imita a terra.
A terra imita o céu.
O céu imita o Tao.
O Tao é o único modelo de si próprio.


Lao Tse

terça-feira, março 18, 2008

uma pose por segundo

banda sonora blonde redhead.

quarta-feira, março 12, 2008

Murcof - Rostro

a calma necessária para um dia como este.

The mouth, the worm, and a magic eye creature...

Banda sonora de Ilkae.

quarta-feira, março 05, 2008

A caverna.

Por mais que seja autosuficiente e faça o culto do eremitério, existem alturas em que a minha companhia não é totalmente suficiente. Percebo que preciso das pessoas e isso aumenta a minha angústia, visto que estando em eremitério não estive presente para elas. O mais engraçado é que este sentimento é fruto de reflexão. Sou eremita mas continuo a querer estar com pessoas, ainda mais aquelas que me dão garantias de estarem presentes na mesma caverna que eu, não na mesma situação mas a velar pela minha sobrevivência.
O que me dá alento para cortar a barba do isolamento e juntar-me à celebração da vida.
A caverna constrói-se através da reflexão e depuração do isolamento e da vontade de dar algo de volta ao universo.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Desafios

O homem médio normalmente não gosta de desafiar o estado das coisas, prefere que as decisões sejam tomadas por ele.
Somos um país de homens e mulheres médios, onde esperamos sempre que venham uns senhores autoritários que nos ilibem de tomarmos decisões que possam ser embaraçosas para nós. Estes badamecos mediocres que estão no governo estão lá porque preferimos seguir as maiorias e não fazer muito barulho.Os brandos costumes são o solo de onde floresce a passividade e a não cidadania.Não aprendemos a pensar sozinhos e é por isso que vivemos à séculos numa sociedade interrompida, sem poder de contestação e a chafurdar eternamente no seu lodo.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

A realidade.

Imaginem um corredor estreito, situado algures numa torre com vários andares, cheio de mentes activas e cativas desse espaço.
Estão na escuridão e silêncio total. Sozinhas com as suas ideias. No final de cada corredor existe uma porta, mas ninguém sabe, pois todo o corredor está apagado, sem luz. Ninguém pode intuir que haja uma saída, a não ser que queira dar um sentido mais amplo à sua existência, à sua clausura. Pois bem, a partir do momento em que afirma que a porta existe, mas não a vê, está no domínio da fé, com origem numa lógica individual, separada da experiência.


Outros poderão afirmar que existem lâmpadas por cima das suas cabeças, por quererem dar um sentido mais amplo à sua existência, à sua clausura, ou ainda por temerem a sua solidão aumentada. Mas ninguém pode ter a certeza que existe luz potencial por cima;quando o afirmam querem escapar desesperadamente à sua prisão, à aparente falta de sentido daquele espaço, querem e têm esperança em sair. Estão ainda sentados na poltrona optimista da fé.



Existem aqueles que por serem pessimistas se afirmam realistas.
No fundo, têm razão.
Não existe nada para além da escuridão e é essa a realidade. Mas se acenderem a luz ou se depararem com a porta não encontrarão nenhuma correspondência entre estes eventos, dado que nada existe, nada intuiram.
Viverão a estadia nesse espaço como se não tivessem outra saída senão aceitar a sua própria condição.

Outros ficarão imóveis por intuirem o abismo à sua frente. O tempo irá encarregar-se destes.
Morrerão a projectar a paralisia do medo, sem nada conhecer e definharão com as raízes enterradas em terreno estéril.


Eu prefiro outro caminho. O de saber que existe correspondência entre os eventos, mesmo sem saber que me encontro num corredor com uma porta ao fundo e uma fileira de lâmpadas tombadas por cima da minha cabeça.
A realidade é o caminho. A iluminação do caminho é a realidade.
O caminho na torre é sempre em frente. No corredor não se vira nem à esquerda nem à direita. Por aí apenas se bate com a cabeça nas suas paredes.



Em frente não existem obstáculos, mas sim sensores de movimento. E os sensores acendem a luz do caminho.
A pouco e pouco apercebemo-nos que estamos num corredor, a pouco e pouco absorvemos a experiência do caminho.
O caminho é olhar para a frente.
Os vários andares são partes diferentes da mesma torre.


A torre é a soma de todas as experiências, este é o seu conteúdo.
As experiências fazem com que a torre desperte e tenha consciência dela própria.
A torre é a consciência que ela tem dela própria.
O despertar da torre é a realidade, e foram os seus prisioneiros que a acordaram quando se puseram em movimento.
E assim se fez luz em vários dos seus andares e a torre passou a ser um farol na noite escura.


Texto: Paulo Dias

sábado, fevereiro 02, 2008

Poema #3


Pudesse eu acordar de repente
sons que tenho em mim latentes


De certeza que compunha uma daquelas sinfonias
inscritas no mais profundo esconderijo...
o molde da lembrança de ti.


Pudesse eu colher o solo
onde crescem cacofónicos
e deitar todos no terreno onde ausente
floresces.


De certeza que comporia outra daquelas sinfonias
Trazia-te de volta à vida
E em vez de uma serias duas.


Pudesse eu arar a superfície do sofrimento
Onde se libertam prantos doridos
Afinados em dó.



De certeza que originava um requiem
E morrias sem querer
Ficando sem ti mais uma vez.


Pudesse eu largar a enxada
E sentar-me no baloiço da infãncia


De certeza que sairia uma cantilena
Chegarias triunfante ao colo de um giroflé
E em vez de uma serias muitas.



Pudesse eu rebolar na lama dos dias
E assistir à impavidez e à serenidade
Sereno e impávido.



Comporia uma daquelas músicas
Farfalhudas cheias de lugarejos
Comuns.


E em vez de muitas voltarias a ser uma
E eu ficaria por aqui
Por medo de voltar a perder a multiplicidade
Da tua ausência.


Texto: Paulo Dias

Poema #2



E é aqui que eu me sento, escancarado, sem apelo.
No fundo de uma acomodação bafienta.
Com restos de roupas usadas
Naftalina orfã do seu cheiro.
É junto de mim que não quero ficar.

Não cometas a loucura e imprudência de me enterrares numa lápide.
E comprometeres a minha eternidade.
Aqui jaz ninguém.

Estas ossadas não devem permanecer, devem soltar-se no universo
e confundir-se com o pólen que transporta as abelhas.
Ir ao fabrico do alimento viscoso, puro, elemento da criatura fundente
Propriedade da carne dilacerada
e das veias aquedutos de sangue.


Não me interrompas a ascenção aos cumes
prendendo a minha essência em carvalho
não sou adepto de elegias fúnebres
corro o risco de ser revelado e perecer.


Abre um buraco grita lá dentro canta o meu obituário
a toda a boémia que te encontrar
transforma-me em matéria orgânica
edifica uma àrvore de ávidos frutos cadentes
Tudo em minha honra.

E partirei assim, da mesma forma como cheguei
Nem roupa nem armadura nem silêncio.


Texto: Paulo Dias

Poema #1



Se sou liquido e estou encarcerado, porque me evaporo?
E se me evaporo, onde está a chuva a que tenho direito?


Não me considero sólido.
Se fosse sólido seria fruto da sedimentação
talvez rocha.
Ainda não houve alma que assim se pronunciasse na minha direcção.


Gostaria porém de estar aos ombros de uma montanha
vê-la parir um rato apressado
segurá-la pelas mãos na extinção do parto
e cobri-la com um manto branco de avalanche.


Mas teria de ser líquido
para poder escorrer sólido
encosta abaixo.


Não.
Não serei líquido, concerteza.
Não cabe em mim a imensidão dos oceanos e as suas riquezas.
Não aprendi a escutar o rumor das marés ou a beber a silhueta prateada das noites luadas
Nem a manter à volta falésias obstinadas em equilíbrio.


No entanto desgasto as redondezas
invento arestas afiadas ou ilhas
a quem chamo rochas e pedregulhos
e sou confundido com àgua mole.



Sou ainda pedra dura
morada de rapinas, ninhos e eremitas
metamórfico, às vezes magmático incandescente
e sonho com o tecto do mundo.



Serei então mistura
meio liquido meio sólido nunca gasoso.



Porque se fosse gasoso este poema estaria Evaporado.



Texto: Paulo Dias

terça-feira, janeiro 08, 2008

Sem palavra

E já lá vão dois meses desde que teci as últimas considerações sobre o mundo em que vivo.
Resolvi voltar. E venho reiterar o que disse no meu último post, visto que hoje fiquei a saber que não vai haver referendo ao tratado de Lisboa.