terça-feira, julho 31, 2007

Homenagem Silenciosa


Fica aqui o meu mais sincero tributo a um dos maiores cineastas que já viveu. Ingmar Bergman morreu ontem. Palavras de silêncio em homenagem.




Imagem: Sétimo Selo

segunda-feira, julho 30, 2007

Sempre ouvi dizer que se não os posso vencer devo juntar-me a eles. O que é que isto quer dizer na realidade? Quer dizer que se não podemos vencer um obstáculo devemos simplesmente resignarmo-nos à nossa insuficiência? Devemos prestar vassalagem aos mais fortes do que nós, aliando-nos a eles para usufruir da sua redoma de poder? Será que este dito popular é universal? Penso que existe uma máxima mais interessante, se bem que não tão proveitosa como esta. " Se não os podes vencer, ignora-os. " Digo não à vassalagem. Este tipo de arquétipos só perpetuam a falta de confiança que temos no nosso potencial e no nosso caminho individual. Se não os podes vencer, caga para eles, só assim poderá surgir a oportunidade de te fortaleceres.

sexta-feira, julho 27, 2007


" (...) À margem de tudo isto, um pequeno universo que se escapa na elipse do tempo indefinido…opta por não combinar qualquer encontro…recusa o vagar da velha carruagem; concentra-se num só ponto e expande-se em todas as direcções… acende todos os espaços em branco e reinventa-se à sua passagem…deixa maioridades tímidas presas em biombos sem vértices, embriagadas de pretensa maturidade… com ele um novo ciclo principia incessante… e a inexperiencia leva-o em mãos (...) "




Texto: Excerto de " O interlocutor pueril" de Paulo Dias

Tenho andado um pouco preguiçoso, com alguma dificuldade em acabar coisas a que me propus. Mas também sei que o meu corpo pede uns momentos a sós comigo. Por isso respeito esta sensação de uma forma reverente. Como quando o corpo tem sede e a boca imagina a àgua a molhar-lhe os limites.

Pequenos nadas

Ainda estou a aprender, devagarinho, a apreciar a importãncia dos pequenos nadas, a que me fui furtando sucessivamente nos últimos anos. Estar apenas, desfrutar de uma ida ao café, que para o mais comum dos mortais é um dado adquirido, para mim foi sempre algo com que eu nunca convivi muito bem. Ainda não sei porquê, mas gosto desta libertação. Algo em mim está diferente, algo em mim nasceu outra vez, ou melhor, reapareceu. Ainda não sei bem o que é, mas vou continuar a aproveitar o que os pequenos e grandes nadas têm para nos dar. Quando souber melhor o que se está a passar escrevo o manual.

sexta-feira, julho 20, 2007


Já percebi porquê que a música no Jamaica é sempre igual. As pessoas tendem a entrar para dentro delas próprias quando a música é boa, quando é inesperada. Trocam apenas aquele olhar cúmplice de quem está a sentir algo semelhante e pronto. Quando a música é boa não temos olhos para mais nada, não queremos ser incomodados. E isso cria um ambiente menos solidário, menos divertido. A música má obriga-nos a olhar em redor, a sair da redoma. Revolta-nos, é assunto de conversa.
E é por isso que o Jamaica tem sempre a mesma música, e é por isso que tem noites divertidas, e é por isso que se conhece tanta gente por lá. Quase toda a loucura tem método, e esta não foge à regra. Não faria sentido se esta opção pela repetição não tivesse um propósito.

Altruismo


Aprofundando um pouco algumas ideias que já tinha sobre o altruísmo, continuo a defender a ideia que o altruísmo puro não existe. Pode ser puro à partida, na sua génese, mas apenas continuaria puro se não existisse qualquer espécie de reflexão posterior ao acto em si. Para quem não faz este tipo de exercício os meus parabéns. Mas não me esqueço que acredito na lei do Karma, ou seja, mesmo a melhor das acções está sujeita a reverter positivamente para nós.
Tive também, ainda no seguimento deste assunto, uma conversa sobre se um gesto altruísta pode ou não ser consciente. O que quer isto dizer? Quer dizer que algumas pessoas confundem altruísmo com espontaneidade, retirando do seu campo de acção tudo o que não seja irreflectido. Não concordo; se bem que a espontaneidade, para a ser, precisa de ser irreflectida, existe outro tipo de espontaneidade menos requintada, aquela em que nos surge uma ideia rápida na cabeça, na qual pensamos um pouco e depois decidimos obedecer. Para mim o altruímo não tem de ser espontâneo. Precisa somente de não ser egoísta no seu resultado final.

sábado, julho 14, 2007

Cocktail Lisboa



A fórmula para a câmara municipal de Lisboa: umas quantas saquetas de Garcia Pereira em pó, para juntar ao cocktail dos vereadores eleitos, um gelozinho bem picado, umas gotas de discernimento e voilá! Temos Lisboa para dar e vender...
Gostaria de ver este senhor a desancar sem dó nem piedade todos aqueles toscos que se apelidam de vereadores..Garcia Pereira não precisa de assessores...qual Sá Fernandes? Este senhor faz os trabalhos de casa dele e ainda tem tempo para fazer os dos outros...
Mais uma vez volto a afirmar: claramente o vencedor do debate a 12.

quinta-feira, julho 12, 2007


E mesmo que dê pistas ou imagens de mim, vou continuar a ser uma personagem de ficção.
Por isso, o melhor que me define é a ausência de aparência física. Sendo assim, esta imagem aqui já serve de príncipio. Fica para os próximos dias uma aproximação mais fiel...


Está na altura de aprofundar os dedos que teclam incessantes por trás destas imagens. O que seria suposto dizer para me apresentar ao escasso auditório que não me conhece e que passa por aqui? Sinto-me como se fosse uma parede de uma galeria, de um museu, que fica sempre anónima e por trás das imagens ou intervenções que se sobrepõe a ela. Por mais que escreva tudo o que me diz respeito, mesmo que escreva coisas tiradas da minha própria ficção, enquanto não enquadrar isso tudo numa aparência qualquer, numa redoma física, continuarei a falar-vos e a escrever daquele sítio onde nascem as personagens mais mirabolantes e onde os deuses vão buscar ideias para as suas criações.



Imagem: Amadeo de Souza Cardoso ( em parte incerta )

quarta-feira, julho 11, 2007



E assim vestido de confettis tenho a sensação de que o tesouro que guardo na cave, ao pé do estomago e ao mesmo tempo perto da fronte está mais brilhante, decidiu aparecer um pouco depois de o ter perdido quase para sempre. Espero que a visualização do mesmo não tenha sido um acidente de percurso, até porque o brilho que ostentava era parecido comigo.

Mas de qualquer maneira fica aqui o abafo. Não é simples dissociarmos o fracasso da nossa quota parte do processo.

Quotas Partes



Nestes últimos dias tenho estado a visualizar uma série de coisas que vão permanentemente afastando as pessoas umas das outras...uma é a forma como não reconhecem quotas partes, a outra é a forma como as reconhecem..no meio destes processos antagónicos, algo se perde irremediávelmente, a capacidade de ouvir o outro e de separá-lo de nós...
Por isso tento remeter algumas coisas para mim...quando um pouco de agressividade sai em reacção, quando um bocadinho de indiferença não sai, mas é percepcionada pelo outro...a questão das quotas...tudo gira à volta disso quando as acusações começam a voar, vorazes...será que é assim tão importante distribuir e redistribuir as quotas partes do processo?

terça-feira, julho 10, 2007



Este excerto é de uma estória que escrevi sobre um aprendiz de deus que tenta a todo custo ter sucesso como ser supremo de um universo...infelizmente dá à luz um universo em que não se sabe se ele existe, porque o criou de forma involuntária...
Nesta situação Alvin está a consultar o manual escrito pelos mais velhos que deixam recomendações ao iniciados:

" (...) Alvin precipita-se sofrêgo para o conteúdo do manual que começa com o seguinte: " O caos que dá de beber ao espaço conquistado, ao vazio, celebra triunfante a abertura das pesadas comportas... esta é uma concepção inicial do princípio dos tempos, de qualquer tempo, em que o agente caos se senta no topo da bola informe, a definir o tamanho com que projecta a sua sombra. O iniciado nas coisas de deus deve ter sempre em mente que todos os mundos, corpos, sejam eles de que dimensão forem serão feitos à sua imagem e semelhança; não falamos de traços físicos, nem de características ilusórias de personalidade; deve ter acesso ilimitado ao seu perimundo, bem como ao seu mais profundo ribombar (...) O que quer dizer isto ao certo? Segundo a experiência que aqui documentamos e legamos às gerações vindouras, todo aquele que não seja puro nas intenções, todo aquele que revelar pouca maturidade nas decisões, na concepção orgânica do seu projecto está condenado a ser destituído e a alhear-se da sua própria criatura (...) "



Pintura: Lucio Fontana ( 1899-1968 )

E o mais relevante no meio disto tudo é que serve para agilizar a mente que anestesia ao ritmo do calor que teima em aparecer... Reparei também que ela é sazonal, mesmo que a temperatura fora dela seja equivalente a um sítio onde nunca esteve antes...

Já tinha chegado a esta conclusão, mas ultimamente esta frase anda a ecoar nos cantos da minha mente. Resolvi dar-lhe uma espanadela e eis que ela solta o seu elemento patogénico:


" Não ver é como não querer saber que não existe."


A grande quantidade de negações não facilita a digestão, eu sei, mas um pouco de tempo e lá se consegue dar uma boa trinca na coisa. É o pior cego não quer ver tipo século 21, ou ainda quem em terra de cegos tem olho é rei e por aí adiante. Mas esta frase tem o encanto de ter sido dada à luz depois de algumas arrumações no sotão da minha memória...e tem a vantagem das outras grandes máximas, ou seja, desorganizam antes de iluminar...

Desiludido #2


Será que é assim tão complicado aparecer alguém em Portugal que tenha um projecto com princípio, meio e fim?
Ou que tenha a coragem de não ser covarde?
Fiquei surpreendido com o Garcia Pereira...Foi o único que conseguiu mostrar uma certa independência e um nada a perder que lhe permitiu chamar os bois pelos nomes, como diz o povão. Para mim, o vencedor do debate. O egocentrismo e a profetização do género eu bem vos disse ou já tinha disto isto ou fui o primeiro a levantar a questão provoca-me uma certa relutãncia em relação ao Sá, ou Zé. Mesmo que queira, mesmo que tenha boas ideias e intenções, não consigo dar-lhe o meu voto, há qualquer coisa na personalidade dele que está latente, pronta a rebentar e não quero ser o gatilho para essa catástrofe. Não comento a ignorância e diarreia verbal cheia de lugares comuns e bodes expiatórios do candidato da extrema, nem a cautela partidária e troca de galhardetes prontos a consumir dos candidatos do centrão, já para não falar da cassete CDS-PP, sempre a tentar vestir a pele de cordeiro quando todos sabemos como é que eles fazem política, apregoando medidas simpáticas e depois resvalando para a direita mais conservadora que se conhece sempre que podem. Quanto à Roseta, deixou bastante a desejar neste debate. Não teve garra, nem energia, manteve-se sentada no topo da sua letargia e foi perfilando as propostas sem nenhum entusiasmo. Se era a que estava em melhor posição para obter o meu voto, neste momento sinto-me bastante relutante em cedê-lo à sua candidatura. Não admira que a sua candidatura venha perdendo gás. O candidato da indignação, o Gonçalo da Câmara Pereira, foi uma caricatura dele próprio, sempre disposto a fazer rir o mais sizudo dos seres, Confrangedora a falta de perspectiva de cidade e de conhecimento dos dossiês com que foi a debate. Manuel Monteiro ainda vive na era em que o levantar a voz era sinónimo de boas propostas. A sua proposta de entrega da gestão de várias valências da cidade a privados tem algo de truculoso que não me compete a mim avaliar, mas claro que estamos em Portugal e a primeira coisa em que pensamos quando ouvimos falar em privados é nos amigos e nos amigos dos amigos. É um modelo que não serve os interesses de Lisboa. Provou também que ainda não esqueceu Paulo Portas.Ruben de Carvalho esteve mais nervoso do que é habitual, prejudicando com isso a sua performance. Inexplicável a colagem às propostas de António Costa no que toca ao saneamento financeiro da câmara e lamentável a tentativa de branqueamento da situação financeira, ao dizer que os activos da câmara são maiores do que o passivo. Até parece que nunca vivemos dias melhores. Resta o Candidato do MPT, que apesar de algumas boas propostas, não tem carisma suficiente para as validar. Sobre Carmona não falo. Só volto a dizer o que toda a gente acha: Devia ter vergonha na careca.
Mas de qualquer maneira não perco a esperança, esta há-de ser sempre a minha cidade, com tudo o que tem de bom e mau.

Desiludido


Ainda estou perplexo com o debate de hoje sobre Lisboa, sobre as eleições... Fiquei mesmo apreensivo, já não sei se ainda temos futuro, o tal futuro que se impõe e que toda a gente deseja...O que parece ser evidente é que toda a gente quer o mesmo, mas depois o poder seduz e desfaz todo o discernimento com que as pessoas chegam aos respecctivos assentos...A sério, estou mesmo preocupado...Já não sei onde pertencer, os candidatos em atitudes fundentes para no fim não dizerem nada....houve uma tentativa de aprofundar o debate, mas a cada tentaiva de aprofundar a desorganização do discurso tornou-se evidente em quase todos...não passam do jargão bem ensaiado, tomam os eleitores por ignorantes e não sabem o que os distingue dos outros, pelo menos não o conseguem mostrar...estamos à beira do abismo e só agora é que se tornou evidente que ninguém quer salvar o barco...

sábado, julho 07, 2007



" O ser empedernido dá descanso ao olhar e também ao coração de pedra
apenas por empatia e hábito à frieza do seu revestimento. Insinuara que outros fervem as suas cápsulas.
E sempre que apoia o queixo guarda o olhar no cimo da cavidade onde mora.
e depois Sente... sente que outros fazem outras cápsulas ferver.
O ser empedernido é devolvido ao granito... compreende que nunca será o outro a quem fazem ferver, e, quase imediatamente, os seus olhos procuram um lugar confortável onde morar. "
Isto de recuperar excertos de textos antigos promove uma espécie de continuidade amarga. Ainda sou eu em vários momentos de pensamento, apesar das diferenças actuais..mas como tudo, tem vantagens evidentes.. dá para perceber o que foi feito, o que ficou por fazer, apesar de existir em projecto e aquilo que nunca teve a sorte de ir para o papel.
Mas infelizmente dou por mim a reformular estes projectos de mudança e a criar uma má gestão dos meus recursos...

" (...) a conclusão é que o sítio de que ando a fugir, e isto pode parecer um lugar comum, mas de certa maneira os lugares comuns transportam conhecimento e sabedoria irredutíveis; esse sítio onde o medo espreita a cada instante reside em mim, não obstante de também já o ter visto cá fora, mas essencialmente está em mim e eu sou responsável por levá-lo a todo o lado; posso fazer algo, posso vestir-me de exterminador e implacável estender o carnaval ao resto do ano … vou esperar mais uns tempos e ver se realmente o caminho que estamos todos a seguir possa desembocar na solidariedade genuína e amor fraternal entre todos, como ainda acredito ser possível, amor esse catalogado de utópico para que se torne parte da estratégia de desistência a que somos diariamente sujeitos (…) "



Texto: Excerto de " A cortina de fumo " de Paulo Dias

É próprio desta época de férias uma certa anestesia mental...as imagens vão-se acumulando para serem posteriormente consumidas no Inverno...encontrei esta imagem que não querendo dizer nada já diz tudo..

terça-feira, julho 03, 2007

Idealismo #2

Por isso. amantes da nossa bela cidade, votem...seja na Roseta, seja no Zé, mas esqueçam os aparelhos partidários... a mudança começa no dia em que os cidadãos votarem sem terem em conta esses tubarões que nada fazem a não ser dizimar o erário público.

Idealismo

Para que serve ser dos poucos que ainda acredita na pureza de intenções de quem pretende para si próprio um futuro mais risonho?
Tudo a que tenho assistido é à mais primitiva das noções de idealismo; a qualquer custo se impõem ideias que não beneficiam ninguém a não ser o circulo ritual mais próximo... Um bom exemplo que se perfila neste momento são as eleições para a camâra de Lisboa; todos sabemos que a única esperança de mudança reside em dois candidatos, que para além de concorrerem em separado, estão a ser engolidos pela voracidade das máquinas partidárias, que se limitam a perpetuar ideias que não servem o propósito destas eleições, que se resume a dar a mão a uma cidade que está a cair pela ravina abaixo.

quinta-feira, junho 28, 2007

Sport Billy

e o mais fixe é que todas as semanas aprendia algo de novo sobre história das civilizações, arqueologia, qualquer coisa...os desenhos na altura eram assim...um pretexto para a aprendizagem...o verdadeiro dois em um...

Sport Billy


De repente estava a ver o RTP Memória, o Portugal-Inglaterra de 1986...a patrocinar o jogo estava um anúncio do Grande Sport Billy, um dos desenhos mais clássicos de sempre! Aquela mala fantástica da qual nunca me vou desvincular... Vocês sabem do que estou a falar...

terça-feira, junho 26, 2007

Ser adulto

" (...) bem, a questão importante é saber por onde começar, qual o ponto de partida do sofrimento que é instantâneo e que só tarde e fora de horas aprendemos a transmutar…posso dissertar sobre o tipo de ferramentas que nos é fornecida por esta sociedade interrompida, volátil; que tipo de importância tem o ser adulto ou maduro, se com isso matamos o único ser a que conseguimos dar luz, a criança residente, que pura e simplesmente se perde no meio do processo? Ser adulto, no fundo, é sentir cada vez mais intermitente esta criança que um dia se apoderou de nós, do nosso sorriso, da nossa espontaneidade e que alimentava a inocência de todos os que, deliciados, se reuniam à volta dela… e é por isso que as pessoas procriam, têm filhos, crianças, para a poderem sentir de novo, para terem a certeza que ela está bem e que podem aconchegá-la no sono enquanto couber no berço ilusório da idade dourada (...) "



Texto: Excerto de " A cortina de fumo "


" (...) O milagre da solidão que enquanto o diabo nos esfrega os olhos alastra e toma proporções consideráveis fez-me finalmente acordar para todo este véu enfumarado que separa os saudáveis fumadores da vida, os verdadeiros sábios que se vão matando aos poucos, voluntáriamente e apesar de todos os avisos, dos outros que pensam que a abstinência potável e a conformidade às regras pré-existentes é a melhor droga ( que a paz esteja com ele+s)… dá-me vontade de rir de quem tem a pretensão de ter o destino nas mãos, ainda por cima sentindo a tentação alarmante de evangelizar o mundo à beira do colapso… não tenho dúvidas; a queda iniciou-se a partir do momento em que ganhámos a capacidade craniana para duvidar de nós próprios, a partir do momento em que pudemos observar o nosso comportamento a ser engolido por normas atávicas, oriundas não sei de que conhecimento ancestral, e que origina as regras do jogo; que não é mais do que uma forma de ele próprio ( o criador ) encontrar um sentido para existir, de ter consciência individual (…) "



Texto: Excerto de " A cortina de fumo " de Paulo Dias


Passei o dia a ver aviões e soube bem. Lembrei-me que a melhor coisa que podemos ter é o mesmo olho que tivemos em miúdos. Sempre quis pilotar um avião e sempre soube que nunca o poderia fazer, porque um desejo contém sempre o seu medo. E eu tenho medo de voar. Mas continuo com o mesmo olho sorridente quando vejo aviões, sejam aqueles de combate ou os outros, aqueles controlados à distância, quase pilotados por nós. Sempre quis pilotar alguma coisa. E não vou desistir.Quando for grande quero ter os mesmos olhos com o mesmo conteúdo que tenho hoje.

segunda-feira, junho 25, 2007

O futuro de Bilal



Se de tanto tentar o homem conseguir transformar o futuro numa daquelas paisagens apocaliptícas do estilo Mad Max e arredores, eu quero ser uma personagem saída directamente da marquesa plástica de um cirurgião que tenha lido muitos livros do Bilal. E de preferência ter um cabelo com duas cores e um animal de estimação às riscas, talvez um felino feito por encomenda...
E ter como etiqueta ou pano de fundo uma existência quase heróica que me permita viver uma vida digna de ser desenhada..
Porque se de tanto tentar o homem não conseguir transformar o futuro num jardim de destroços, que valor terão os profetas do desastre? Não nos podemos dar ao luxo de os desacreditar, nem que para isso tenhamos de forjar uma auto destruição qualquer... tudo menos perdermos o valor transcendente que julgamos possuir. E uma maneira de manter essa nossa característica é construir a realidade a partir de coisas saídas directamente de canetas inocentes, produto dos seus antepassados.


Mergulhar numa banheira vazia requer um certo poder de antítese. O que normalmente é pedido é exactamente o contrário, a pressa, o sincretismo, a síntese, o resumirmos uma tarefa num gesto ou palavra, mesmo que soe mal e saia inexplicável...pois bem, nesta imagem adivinha-se a antítese, a demora lentificada, o processo ruminante, a calma, a digestão, o final de um ciclo por mais pequeno que seja. Mergulhar no vazio requer sempre umas gotas de tempo disposto a ser gasto...sem que nos digam que o nosso poder de síntese deve ser exercitado...no vazio não existe exercício, é-se simplesmente.

domingo, junho 24, 2007

Entrevista sobre Musica #2



E agora as respostas:


1- definir música é mais difícil do que parece à partida. Podemos dar uma definição tipo dicionário ou uma definição puramente subjectiva.. parece-me que é da segunda que estás à espera... música para mim é a representação de todo um universo ou vários, ininteligíveis à partida e que se agregam em sons para provocar melodias mais ou menos agradáveis; é uma forma de comunicação primordial e inerente ao homem; é veículo de transformação e ponte para dimensões paralelas; é uma resposta invisível a todas as perguntas jamais formuladas... é uma benção dos supostos criadores do universo....

1.2- a palavra música está intimamente ligada aos momentos em que dela se desfruta... memórias, momentos, fotografias mentais, ralos de banheira profundos, o passar das horas vagas, a minha primeira infância, almoços em família e dias festivos, aquilo que eu quero e vou fazer até ao fim dos meus dias, todo o meu conteúdo que pode ser explicado através dela...

2- a música para mim não tem uma função específica... depende dos dias, dos humores ou do contexto em que está inserida... pode ser ritual ou hábito, pode ser necessidade de catarse sem recorrer a ajuda profissional, pode ser a negação dela própria, pode ser puramente estética, pode ser instrumento de afirmação perante os poderes que condicionam a expressão ( o rock associado a uma geração que ambicionava a ruptura com os costumes instalados )... a sua função é não ter função específica... é liberdade em movimento, é, em última análise, a paz...

3- tudo o que sentimos ocorre primeiro no nosso cérebro... nesse sentido é o nosso cérebro e posteriormente nós que reagimos emotivamente à música... somos nós que colorimos e ilustramos as músicas como bem entendemos, mas para existir essa reacção torna-se indispensável a existência de um gatilho exterior, um estímulo... sendo a musica expressão de algo que se sente ou veículo de comunicação, sem dúvida que a música pode transmitir e exprimir emoções... a relação entre a mensagem original e a mensagem apreendida não é linear, visto que a pessoa que a percepciona acomoda a informação de acordo com a sua realidade interna... mas sem dúvida nenhuma que a música sendo comunicação é capaz de exprimir seja o que for, mesmo que à partida não ambicione exprimir nada... em suma, as duas são interdependentes

4- não existem duas apreciações iguais, logo seria injusto dar mais crédito a uma apreciação do que a outra... diria que permite uma apreciação e abordagem diferente... não podemos é ficar reféns de um tipo específico de apreciação... tocar um instrumento permite-nos, por exemplo, distinguir melhor as partes componentes de uma música, mas não é condição essencial para que isso aconteça.. um bom ouvido é mais importante na apreciação de uma música do que saber ler uma pauta ou saber tocar um instrumento..

5- as palavras servem propósitos mais conscientes... ilustram um determinado estado de espírito, tém em regra geral um objectivo mais saliente... por vezes uma letra ou poema pode ajudar a música a ganhar uma maior profundidade e intimidade... há sempre aquelas letras que nos fazem lembrar épocas especificas das nossas vidas pelo seu conteúdo... eu presto sempre primeiro atenção à música em si e só depois é que absorvo a letra... para mim quando as duas se complementam é o ideal.. quando existe uma discrepância qualquer que seja muito visível entre a letra e a música fico desconfortável e acabo por não conseguir absorver nem uma nem outra... mas sem dúvida que a letra, por exemplo na música pop e mainstream, tem uma grande importância: basta notar na quantidade de vezes que os refrôes das músicas são repetidos para se certificarem que não vão abandonar o nosso cérebro tão rapidamente... se ajuda a apreciar a música? - nem sempre...

Entrevista sobre Musica #1



Descobri também uma entrevista que me fizeram sobre música. Achei piada a algumas das respostas que dei. Decidi partilhar. Primeiro as perguntas:



1- Dê uma definição de música.

1.2-O que é que a palavra Música evoca?

2- Associa a Música a uma função específica, para além da função estética? Qual?

3- Será que a Música é mesmo capaz de exprimir emoção, ou o nosso cérebro é que reage emotivamente à Música?

4- Considera que a capacidade de ler música ou tocar um instrumento permite uma melhor apreciação musical?

5- Qual a importância das palavras numa música, ou seja, a existência de um título descritivo ou de uma letra/ poema ajuda-o a apreciar a música?



" (…) agora de repente veio-me à cabeça o pormenor louco de um plantador de vogais, semeadas em campos floridos, que davam à luz recitais poéticos compostos de palavras inexistentes… a vontade que tive de gravar em película tudo isto… pensando bem, deve ter sido esse o mote para a tez invulgar deste dia novo, o plantador de poesia feita de vogais ausentes… mas queria ter guardado isto tudo para mais tarde, não partilhar logo contigo o conteúdo lunático deste sonho; queria ter procurado uma paisagem condizente para que a pudesses mergulhar e seres tu o filme em película e eu o auditório sedento de uma transfusão onírica bem sucedida.. agora já sabes qual é o plano, espero que não apresentes desculpas nem partes do corpo doridas por algum motivo, nada de desculpas andrajosas…vamos que o sol já sua abundante a caminho do seu zénite, e vozes já apregoam que a manhã nasceu única e que vale a pena sair dos casúlos que alimentam a inércia que nos é deixada em herança pelos poderes instalados… não mates a espontaneidade, alimenta-a com um pequeno almoço levado numa cesta de verga, coberto com uma toalha que para além de servir de molde a refeições ao ar livre, também carrega torres, bispos e rainhas que adoram saltitar nos quadrados vermelhos e brancos do seu padrão clássico…e então, vens ou não? "



Imagem: Cindy Sherman
Texto: Excerto de " Porta Fora " de Paulo Dias

Redescobrimentos




Ao vasculhar as memórias que consegui guardar por escrito descobri, ou melhor, redescobri uma estória que nunca conseguiu sair do papel amarrotado onde estava sentada...vou fazer-lhe o favor de desentorpecer-lhe os músculos e levá-la a passear neste universo virtual...quanto às rugas e vincos não há nada que se possa fazer:
Esta estória fala de uma personagem de um conto que escrevi à uns tempos...nesse conto ele é um velho que todos os dias de manhã aguarda pacientemente que alguém lhe peça para tocar o seu acordeão...



" Esta história começa com ele em pequeno, com um irmão que o tem refém da sua angústia, do seu ciúme… ele deposita na orelha do velho um pequeno feijão como se fosse uma partida inocente… o feijão acaba por germinaar e crescer lentamente e servir de impulsionador de sonhos aéreos…os sonhos e pensamentos escalam o pé de feijão, mesmo antes de ele ouvir a historia clássica que fala disso.. tem imagens que são geradas nessas altitudes brancas e fofas, nesses conjuntos de nuvens adoradas que o convidam a ficar mais tempo, por vezes em casas arruinadas e assustadoras.. a frase inicial dá conta de uma chaleira fumegante que está a suar ao lume.. é inverno; a lareira está acesa e a casa fica encostada ao sopé de uma montanha, onde o frio bate à porta invernal… a familia é constituida pelos pais, pelo irmão e pela avó, parteira de profissão e que se mudou recentemente para junto da filha para poder ajudá-la a dar à luz… a casa é modesta, porém acolhedora…os quartos a as divisões são acolhedores…o pai dele é um músico que mal consegue dinheiro suficiente para sustentar a família; e o pouco dinheiro que tem gasta-o na taberna local…a mão da mãe faz vestidos por medida, é a mais talentosa... "



O resto desta introdução ficou sempre engasgada...nunca mais voltei a pegar nela...como tudo na vida, teve aqui os seus poucos minutos de fama..

quarta-feira, junho 20, 2007


E claro, nas mondas em terreno estéril, vem ao de cima o que está armazenado...estou de visita ao celeiro da abundância, onde guardo as provisões de insanidade mental...aqui vai o trigo já devidamente separado do joio:


"A verdadeira tragédia que me tira as medidas é aquela que é invisível para toda a gente que não me sente, que pensa que eu sou o mais habitável dos mundos, que a aparência exteriorizada é isenta de querelas internas e flutua, plasmática e balsâmica acima de todas as suspeitas e agressões… pois bem, têm aqui o meu manifesto de sofrimento; o que é imaterial e exibe em mim o seu mais profundo requinte… ainda bem que o abandono é sempre uma opção; não sei o que seria se o criador (?) não tivesse inventado teclas de escape e covas profundas no cimo de montanhas cónicas… se eu pudesse pelo menos reconhecê-lo e convidá-lo para uma conversa calma, falar de como estou longe de qualquer ideia triunfante encomendada para me entreter; poder questionar se algum dia ele pensou que a cortina de ilusão duraria para sempre e no caso da humanidade acordar, que tipo de estratégia alternativa tinha em mente..."



Imagem: Erich Heckel
Texto: Excerto de " A cortina de fumo " de Paulo Dias

Monolake - Linear

ainda tenho de ir consultar a minha lista extensa de música electrónica a ver se constam.


Como não tenho tido nada para dizer, porque não dizê-lo?

segunda-feira, junho 18, 2007

MAS EM ALTERNATIVA, OS MEUS OUVIDOS ESTÃO AGORA AGUDOS.
HOJE NÃO PARTILHO IMAGENS, A MINHA MENTE CEGOU.
Mas de qualquer maneira, e não seria eu se não estivesse à procura do lado escondido das coisas, existe sempre o lado desinteressante e decadente... neste caso específico é que não tenho tido nada de interessante para postar ou partilhar... os segredos da alma são assim, calam-se quando a vida corre e aparecem quando a vida se cansa...

Dias

Existem dias assim, dias em que se aprende mais do que a quantidade racionada por pessoa...E tudo apenas se deve aos olhos bem abertos...Hoje senti que estava pronto para receber informação e assimilar, que tem sido a grande dificuldade...Há dias assim, em que voltamos a ser humanos...

sexta-feira, junho 15, 2007


O que dizer desta imagem que tanto me atormenta pela sua crua realidade e pela identificação a que me sujeito? Sinto um edifício vazio em mim, sem um projecto de reabilitação, apenas de recuperação das fachadas.

Este corpo impermeável à agua não tem reserva de sentimentos. É irreal, por isso tenta sentir o elemento fundamental da existência, a lágrima. Não chora, logo não existe, apesar de pensar nisso. Por não saber onde a encontrar, abre a torneira. A empatia não vem, o barulho corrente não a traz. A àgua nascente só por si nada provoca. A impermeabilidade é a chave do prazer. O corpo exibe a humidade liquída. O que dizer de pulmões molhados, ou de um coração alagado? Certamente que evitariam o prazer, seriam desagradáveis. O prazer impermeável é o príncipio da existência; este corpo continua impermeável e é por isso que sobrevive, ainda que molhado.


O meu olho acordou treinado para o belo e o sublime. Hoje em vez de palavras, comunico telepáticamente através do universo virtual, sem destinatário individual.